terça-feira, 19 de outubro de 2010

18/10/10 Um dia feliz

A noite novamente não foi das melhores porque os ratos voltaram e tiraram um pouco a minha paz e a do André. Conseguimos uma estratégia descobrindo o esconderijo deles e ligando nossas lanternas para que não saíssem e quando saiam nós dávamos um grito para que eles voltassem. Tenho percebido que a questão dos ratos tem sido uma questão mais espiritual do que natural. Hoje foi um dia que precisávamos estar dispostos já que começamos integralmente o trabalho com as crianças e como um modo de impedir isso ocorreu tal fato e para mim ainda teve um acréscimo já que não acordei bem da barriga. Porém isso não foi impedimento para que tivéssemos um dia muito proveitoso e feliz.
Acordamos bem cedo e tivemos um período de intercessão e após uma breve reunião com o Marcos e a Viviane. Estabelecemos algumas estratégias para o trabalho, “matabichamos” e fomos para o trabalho com as crianças. Foi uma festa quando chegamos, aliás, antes mesmo de nós as vermos elas já vem correndo ao nosso encontro, sempre com muitos beijos e abraços. Percebi que a Viviane é uma guerreira ao dar conta das 80 crianças. Elas não são mal-educadas, mas como toda criança gostam de gritar, fazer bagunça e de vez em quando brigarem umas com as outras. Elas são divididas em duas classes de 40 cada. A estrutura da sala de aula é razoável, como a da escola, já que a base tem dado almoço para todas elas. O problema maior é que faltam pessoas para ajudar. Tivemos que elaborar uma atividade no susto já que não tínhamos nada planejado. Jessica e André em uma sala, eu e Vivis em outra. Contei a história da arca de Noé (que na minha versão ficou “barco de Noé” para facilitar o aprendizado)e ensinei uma música. Para finalizar eu perguntei para a Viviane se tinha folha de papel para que elas desenhassem. Ela me respondeu afirmativamente e me levou na sala onde estavam. No meu pensar existia uma sala para os materiais didáticos. Eu quase sai correndo quando vi o estado da sala: folhas espalhadas para todos os lados parecendo que o furacão katrina tinha chegado a Benguela. Outro detalhe que é importante ressaltar para que vocês saibam como é a situação aqui é que as crianças são obrigadas a fazerem as suas necessidades fisiológicas no mato por não ter banheiro. Quero que vocês entendam que os missionários do projeto têm dado tudo o que podem para que esse trabalho tenha o mínimo de estrutura, mas por diversos motivos financeiros e de necessidades de pessoas são obrigados a enfrentarem esse tipo de situação. Quem vê, a vontade que dá é tirar tudo que você tem para que as crianças tenham o mínimo de condição. É triste ver um quadro desse. São inúmeras as necessidades que os obreiros passam, mas, sobretudo os aplaudo pela garra e o amor com que levam esse trabalho.
À tarde retornamos e mais uma vez tivemos que “se virar nos 30” para elaborar uma atividade para eles. Mais uma vez o grupo se separou em dois. A outra sala ó se ouvia a alta voz da Jessica para que eles ficassem quietos enquanto o André colocou o seu talento de advogado familiar tentando reconciliar as crianças que brigavam. Uma dificuldade que estamos enfrentando é que uma criança tem dois nomes podendo chegar a quatro nomes dificultando o ensinamento do próprio nome. Exemplo: uma menina foi registrada como Aline, conhecida pelos colegas como Julia e em casa chamada por poliana. Isso é normal aqui. Não só para as crianças como dos mais velhos.
Até amanhã!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

17/10/10

-Marcos, como é o culto que participaremos no domingo?
- Não vou contar. É surpresa
- Por quê? Me conta!
-No domingo você vai ver
E o dia de ir para a igreja chegou.
Uma igreja muito pequena e que no momento em que chegamos tinha apenas algumas pessoas. O louvor já estava acontecendo. Mãos levantadas, olhos fechados e vozes parecendo um grande coral. Logo que me virei para trás o que era um pequeno grupo se tornou uma grande multidão que seguia o ritmo e cantavam ao som de uma doce melodia. Logo após algumas participações. Por falar nisso é engraçado porque no Brasil você geralmente espera para que a pessoa chegue até o altar e comece a fazer o que está proposto. Pelo menos na igreja de hoje a pessoa, se era para cantar, ela já o começava a fazer quando levantava do banco. Tivemos um jogral, depois o coral sempre recheados com muita música. Depois mais músicas. Aí foram os louvores agitados. O que antes eram canções como oração se tornou uma grande festa. Como esses angolanos dançam! O corpo todo se mexe. Balançam o quadril, mexem as mãos e cantam. E nem se importam quem está do lado. Eles fazem isso para Deus. É a maneira de eles louvarem a Deus. A todo hora o dirigente dizia: Amém! “Aleluiá” e toda a igreja dizia fervorosamente: Amém! Isso em todo o momento ou quando não diante de uma palavra de vitória a igreja toda levantava as mãos e balançava alegremente.
O momento da palavra chegou e a palavra do pastor foi baseada no sonho de José que se encontra nos últimos capítulos do livro de Gênesis. Uma palavra de ânimo para todos nós que estávamos presentes naquela grande celebração.
Na ceia foi servido o pão e o vinho (nesse caso é vinho de verdade acrescido de água). E todas as pessoas que estavam do lado de fora foram convidadas para entrarem. A igreja ficou lotada. O calor estava insuportável para mim, André e Jessica, mas para eles não. Aquele era um momento em que eles estavam esperando há seis dias. No momento da oração muitas pessoas se ajoelhavam, choravam muito e gritavam agradecidas pelo sacrifício de Cristo na cruz. Aquilo foi um grande confronto para mim no qual me perguntava: “será que eu estou dando valor a esse sacrifício?” O calor, o horário que já estava avançado, a igreja lotada, pessoas de pé e sem lugar onde se sentarem. Nada disso foi impedimento para que se derramassem diante daquele no qual tinham um grande amor: Jesus.
É claro que não passamos despercebidos já que éramos os únicos brancos no meio de toda aquela multidão. O pastor nos chamou pediu para que nos apresentássemos. Perguntou o que estávamos achando de Angola. E depois ele afirmou “Vocês estarão conosco no domingo!” Como ele estava me perguntando eu passei a bola para o Marcos que logo respondeu que tinha que ver a nossa agenda aqui. Ele não quis logo assumir um compromisso porque temos outras igrejas para visitar. E aqui em Angola quando vêem alguém novo eles querem exclusividade impedindo desenvolver um trabalho com outras igrejas. Como já falei, aqui a necessidade de pessoas é muito grande e quando aparece algum missionário de outro país é a oportunidade que eles tem para aprenderem.
No momento em que o Marcos falava, ele comentou: “eles ficarão aqui por dois meses, mas quem sabe um deles ficará aqui conosco por um bom tempo!” Um frio na espinha veio em mim e creio que o mesmo aconteceu com o André e a Jessica. Já que a cada dia a gente se identifica com Angola. Pegamos um amor muito grande por eles e o mesmo acontece com eles para conosco. Se ficaremos mais tempo ou não? Deixo essa resposta para Deus.
No fim do culto a esposa veio agradecer a nossa visita e ainda nos agraciou com uma garrafa de “sumo” (suco) e não nos deixou voltarmos de táxi conseguindo para nós uma “boleia” (carona) e ainda nos convidou para almoçarmos na semana que vem com eles (foi uma boa estratégia já que faz com que possamos ir ao culto no próximo domingo).
Hoje fiquei muito triste porque os adolescentes que aqui estão não podem ir a igreja. Eles amam ir a casa de Deus mas são impedidos porque a igreja mais próxima fica a quilômetros daqui e as outras é preciso pagar táxi. Para resolver essa situação só um carro que custa em média $ 7.000 (sete mil dólares).
À você leitor, muito obrigado por estar acompanha o blog. Hoje fui revisar o texto e vi alguns erros de português que cometi. Peço perdão porque escrevo e logo posto sem fazer revisão ortográfica. Assim que tiver tempo o farei.

Ao som do "kuduro"

Dançando ao som do “kuduro” um ritmo tipicamente angolano, ontem nos divertimos até o desligar do gerador. Eu tentei, mas não consegui. A Jessica timidamente também tentou, mas fracassou mexer o quadril. André nem se fala. Nem no samba conseguimos. Ao som de muitas risadas e gargalhadas eu pude refletir sobre a realidade dos Angolanos: eles são felizes. Ponto final. Enquanto eu estava quase passando mal por abstinência a internet eles se sentem felizes ao colocar o som bem alto, louvar e dançar. Essa é a maneira que eles têm de se divertirem, de colocarem cor a vida.
Acabei de conversar com o Marcos e a primeira lição que aprendi aqui em Angola foi desmistificar a idéia de que em Angola só encontramos pobreza, tristeza e que os missionários que aqui estão passam fome e usam boa parte do seu dia para curtirem uma “depre” pela falta dos seus familiares no Brasil.
Está tudo errado!!
Não é nada disso. Aqui os missionários vivem muito bem. Tem todas as coisas que uma pessoa necessita. Se alimentam bem, se divertem e são felizes, muito felizes. Vivem a valorização das suas vidas e dos seus ministérios se doando para o próximo. Falando sobre esse assunto com o Marcos ele me disse que boa parte que passam pela cabeça de muitos brasileiros e até estrangeiros é porque muitos deles abusam das imagens de pobreza para conseguirem um índice maior de popularidade.
Agora entendo que ser missionário e doar a sua vida integralmente para o evangelho, mas também é ser feliz, não se privar das coisas que você gosta. Se você já é assim, acrescente o fato de alegrar o coração de Deus. Alegria dobrada.
Hoje mais uma vez sai ao centro. Fomos às compras já que hoje é aniversário de um dos jovens daqui e decidimos fazer um jantar especial. Aqui você tem duas opções: ou o mercado de rua que são ambulantes berrando e vendendo todos os tipos de variedade ou o supermercado que em nada se difere das grandes redes de mercado do Brasil. E claro que a diferença do preço é absurda fazendo eu e André optarmos pelo mercado popular. Mas eu e ele não podemos comprar sozinhos tivemos que levar o Nanci conosco porque os angolanos vendo que somos brancos nos vendem com um altos juros (alguns chegando a 300% a mais). Eles acham que o branco tem dinheiro (no nosso caso isso é mentira). Saímos de lá abarrotados de batatas, tomates, carvão e alho. E na volta para casa muitas crianças dizendo o meu nome, sorrindo para mim e se alegrando pela presença de um visitante em sua terra.
Agora estou aqui escrevendo. Tem um monte de gente a minha volta olhando para o que estou escrevendo. Enquanto eu e milhares de outros brasileiros estamos se preocupando em baixar a última versão do Msn ou comprar o último modelo de celular anunciado na televisão ou até mesmo ser o centro da atenção por aquilo que veste ou aquilo que esta. Não sendo humano, estando humano. Os angolanos são felizes sem ter isso justamente por viverem na simplicidade da vida, vivendo e sendo humanos.

sábado, 16 de outubro de 2010

Uma benguela desconhecida

O raio do fuso horário continua a me atingir. Essa noite fiquei mais acordado do que dormindo. Eu não sei o que foi, de qualquer forma coloco a culpa no fuso horário. Se algo não der certo é só colocar a culpa na diferença de horário. O Marcos por exemplo é um. Apesar de morar aqui há quatro meses qualquer cansaço ou dor de cabeça ele põe a culpa no fuso horário.
Hoje fizemos uma longa caminhada diversas motos e vans para nós levar a outra parte da cidade conhecida como Benguela. Sobe morro, desce morro, pega moto, desce da moto, pega um carro (táxi), entra em uma van em um lugar aonde pessoas passam e gritam freneticamente e caminha por um bom pedaço para chegar a uma outra base da JOCUM.
Antes de falar sobre o que aconteceu lá faço uma pausa para falar sobre a situação das mulheres angolanas. São mulheres lindas e que não se intimidam em trabalhar e trazer o seu alimento para casa como vi na grande praça. Aliás, boa parte dos ambulantes da cidade são elas que dominam. Muitas deles trabalham e são obrigadas a levar o alimento para casa para alimentar tanto o filho como o marido. Aqui ainda existe um pouco de machismo de homens que esperam que elas tirem os seus sapatos e os sirvam a janta e de quebra ainda cuidem dos filhos. E se não fazem muito bem, apanham. Isso é normal aqui assim como ter muitos filhos. Segundo a cultura angolana uma mulher nasce com diversos fetos no seu ventre. E ela simplesmente tem que por todos “para fora”, ou seja, não existe a palavra anticoncepcional, planejamento familiar, nem se fala. E muitas delas seguem essa “regra” porque o número de mortes é grande.Esta tem sido a realidade de muitas mulheres que tem lutado para conseguirem estudar e até mesmo conseguirem um lugar na sociedade.
Voltando, chegamos a base. Um lugar com muitas árvores que no passado era habitado por antigos combatentes da guerra e que nos final dela foi doada para JOCUM desenvolver projetos humanitários. Ela é dirigida por dois brasileiros que perderam completamente o sotaque brasileiro. Um deles foi muito aberto a nos contar os trabalhos desenvolvidos com a comunidade local. Grande parte deles é voltado para educação com a missão de levar crianças e adultos a lerem. Foi triste ver que um lugar tão bonito como aquele e com uma estrutura espetacular estava necessitando de voluntários. Esse líder não hesitou em nos convidar mais de três vezes para integrarmos ao grupo de voluntários. Demos boas risadas com eles principalmente eu por ele ser carioca( agora que eu descobrir que encontrar um outro carioca gera muitos assuntos eu não quero outra coisa).
Na volta, após nos despedimos de todos fomos ao supermercado que não se difere nada dos supermercados brasileiros e retornamos para via dolorosa dos muitos automóveis que tínhamos que pegar. Quando estávamos na moto um dos muitos moradores que acenavam para nós um deles falou para a Viviane “chinesa” (ela disse depois que muitos moradores a confundem com um chinesa) logo ela se virou para trás e disse: “Não! Sou Brasileira!” Ele rapidamente retrucou: “Lula da Silva”. Eu me perguntei sarcasticamente: “ Será que o Angolanos estão apoiando a candidatura de Dilma?
Para finalizar eu queria que você que está me acompanhado junto comigo pensasse: “O que posso fazer por angola?” Acabei de ler um livro chamado “ a terceira xícara de chá” que conta a história de um alpinista que após uma subida frustrante para o k12 foi parar em uma aldeia de afegãos. Como retribuição a tanto amor dado a ele este perguntou o que poderia fazer para ajudá-los. O líder respondeu: “Monte uma escola”. Após algumas tentativas falhas de conseguir verbas para conseguir tal feito esse americano conseguiu uma ajuda de 20 mil dólares o que foi suficiente para construir um escola. O que era para ser uma virou mais de 35 em todo o Afeganistão, hoje considerado um dos lugares mais perigosos do mundo, principalmente para americanos. Tenho certeza que quando ele falecer muitos choraram e se lembraram de um homem que mudou o mundo.
Você, eu, o que temos feito para mudar o mundo?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Veias à mostra

Eu pensei que fosse palhaçada ou desculpas para algumas pessoas curtirem um pouco mais da preguiça. Mas não é. O corpo sente a diferença do fuso horário. Nesse momento em que eu escrevo sinto muito cansaço no meu corpo e uma leve dor de cabeça ao mesmo tempo não consigo dormir nem descansar já que são 15:32 da tarde. O medo de passar a noite sem piscar os olhos é grande. Até que essa última noite pude descansar bastante já que tivemos um operação “caça-rato” onde se fechou todas as possíveis saídas de onde o bicho poderia entrar como foi colocado um “jantar” para os nosso amigos (nada que um bom veneno para mudar tudo isso). Às 7 da manhã já estava de pé e comendo meu mata-bicho (ainda não me acostumei com o título que deram para o café da manhã). Até que estou me acostumando já a papa, o leite em pó tem ajudado bastante. Quero que vocês entendam que isso não é frescuramas é algo que todo o estrangeiro precisa passar. Semana que vem já estou me alimentando como um angolano, espero. Logo após a refeição o André foi ao centro da cidade para comprar um modem para internet e eu e Jessica seguimos para o trabalho com as crianças. Quando chegamos a Viviane estava em uma atividade com as crianças. Então evitamos de nos aproximar para que não as dispersassem. Aproveitamos o momento para conversar com um dos adolescentes que moram conosco. E apesar de viver na flor da adolescência ele parecia um livro de história ambulante. A sua paixão por essa matéria fez com que ele nos contasse detalhadamente tudo o que Angola viveu no seu tempo de guerra.As marcas ainda estão muito claras na vida de cada um deles. Mesmo que não saibam o que aconteceu no passado ele se torna presente em suas atitudes, na garra e na esperança de dias melhores. Cada pergunta que fazíamos parecia algo que o incentivava a falar com os olhos brilhantes que amava o país em que morava. Quando perguntei que profissão queria seguir ele me contou que o seu objetivo era ser engenheiro, mas seu sonho era ser presidente da nação. E quando perguntado sobre o porquê dessa escolha a resposta que veio foi simplismente essa: “Porque quero ajudar o meu povo”. Isso me fez pensar que o que nós faz crescermos na vida não é o dinheiro mas persistir nos sonhos que Deus nos dá. Quanto de nós já desistimos por que se cansou ou porque simplismente alguém lhe disse que não era possível? A primeira lição que aprendi é que não importa aonde estou ou que situação, o que me faz vencendo é insistir. Para finalizar a conversa aprendemos a buscar água no poço (parece simples, mas nem tanto). O fato de buscarmos água no poço e que tanto a luz quanto a água são financiadas pelos próprios moradores. Então teremos que se alimentar e tomar banho com a água do poço até amanhã pois é o dia que o caminhão pipa vem para a comunidade trazer água (e é um preço muito caro).
Visto que as atividades tinham encerrado, aproveitamos o momento da recreação para falar com as crianças. Quando nos viram fizeram uma festa, nos abração e voltaram a tocar em nós como se fóssemos a lady gaga e o Justin Bieber de Angola. Estavam tão animadas que eu não conseguia ficar em pé. Eram abraços para todos os lados. Eu não me sentia que estava me tocando. Como ontem foram os pés que me tocaram, hoje foi as mãos. Eles me pediam para que eu abrisse e olhavam atentamente como se fossem um cigano lendo o futuro nas palmas das mãos. Quando eu perguntei o motivo pelo qual queria ver a minha mão eles me responderam : “sangue”. E mostraram as suas mãos que eram amarelas. Quem tem a cor clara, geralmente tem as palmas vermelhas e as veias amostra. Outra coisa que parecia ser inédito para eles. Um deles virou para mim e disse: Você é bonito porque é mulato. Eu sou feio porque sou negro como um carvão”. No mesmo momento lembrei a ele a música que eles amam cantar: “Obâ, Jesus me ama. Não importa a aparência o que importa é o coração”. Nesse momento falei para ele que eu era bonito por causa do meu coração e não pela minha cor. Os seus olhos pareciam soltar do rosto desse menino tão pequeno e que já tinha a vida marcada pelo preconceito. As palavras fazem diferença na vida de outra pessoa.
No momento em que estávamos cantando e dançando (eles me ensinam as músicas que eu não sei cantar, inclusive os passos). E quando terminavam voltavam a me abraçar. Enquanto me apertavam eu pensava: Não só elas precisam de amor. Eu também. Eu não só estou aqui por causa delas, mas elas estão aqui por minha causa também. Porque todos nós somos carentes e só nos completaremos quando entendermos o princípio bíblico que diz: “Ame ao Senhor de todo o coração e o próximo como a ti mesmo”.
Quantas pessoas me passaram pela cabeça: Gabriel, Beatriz, meus pais, Mariana, Jonathas, Raphael, D. Maria de Lourdes, Ricardo e tantos outros que poderiam ter a mesma oportunidade que eu estou tendo. Eu não sei o que fazer, mas tenho pedido para Deus o que fazer por eles. No que posso me sacrificar por tantas vidas marcadas? Eu não sei o que nós, brasileiro poderemos fazer para ajudar os nossos irmãos que estão próximos de nós?
Essa resposta só quem poderá me responder é Deus. E eu sei que existe uma resposta para isso: basta descobrir.

Nos acostumando

Apesar da noite turbulenta por causa do nosso amigo rato. Eu desisti de caçá-lo e voltei a dormir. O medo de ele passar por cima de mim era grande, mas eu decidi dar vazão ao meu cansaço. Às vezes escutava um barulho acordava e ligava a lanterna para ver se achava-o. E sempre que fazia isso era obrigado a ouvir o resmungo do André já que toda a vez que eu ligava sempre acendia no rosto dele. Às 5 da manhã eu consegui achá-lo por em cima do teto caminhando como se nada tivesse acontecido. Acordamos às 8:30 e a mesa já estava pronta para o café da manhã ou mata-bicho como é conhecida a refeição matinal daqui. Não existe pão ou café é simplesmente o “funji” uma papa branca feita de feijão e milho (o gosto é muito parecido com o mingau). Eu enchi o meu de leite em pó só assim ficava mais gostoso. Até que achei bom. Eu fiz uma cara feia, mas com tempo acho que vou me acostumar a “matabichá”. Logo após o Marcos nos levou ao trabalho feito com as crianças na base. Ao todo 80 crianças são assistidas pelos missionários que aqui vivem. Quando chegamos todas eles estavam na “bicha” (fila) para beber água. Marcos nos disse que muitas delas não tem nem água para beber em casa e a única oportunidade que tem para matarem a sede. E quando ela nos viram os olhos pareciam brilhar. Estavam a nossa espera há dias e não viam o tempo de nos conhecer. Não foi necessário apresentação já que elas nos conheciam pelo nome. Como não tem professora para ambas as turmas a Viviane tinha que se revezar para dar conta das duas classes. Eu e Jessica ficamos em uma turma. Para entreter-las a Viviane escolhia uma delas para cantar uma música. Então o elegido escolhia uma canção, começava a cantar enquanto todas as outras se levantavam e começavam a dançar fevorosamente e dançar com um animação que eu nunca vi em nenhuma criança brasileira. E assim revesavam sem se cansar, sem parar de sorrir e cantar. Antes de irmos embora todas elas nos acompanharam e nos abraçavam freneticamente em um momento em senti algo nos meus pés e algumas delas estavam tocando neles. Depois de nos despedirmos eu perguntei porque ela tocavam nos meus pés, a Viviane me respondeu: “porque você e branco e porque eles se sentem amados já que não tem esse amor dentro de suas casas”. Para mim essa experiência foi suficiente para o dia.
Hoje eu pude entender um pouco que todos nós temos uma missão diante de Deus. Todos nós fazemos diferença nesse reino. Todos nós somos partes importante nesse corpo e nos complementamos. Nem todos que me lêem viram a Angola porque esse não seja o seu chamado, mas de uma coisa eu tenho certeza para todas as pessoas existem vidas que precisam pelo menos de um abraços, braços que transmitam calor e que transforme vidas principalmente se em nós estiver a luz que se chama Jesus.

Angola, Enfim aqui.

Cheguei aqui.
Depois de dois dias de muita correria, stress, malas para fazer, enfim cheguei em Angola. Acordamos na segunda-feira às 5:20 da manhã, pegamos as malas e com mais ou menos 10 malas que pesavam aproximadamente 240 kg. Chegamos as 11:30 em São Paulo, fizemos o check in e fomos para sala de embarque. Aquilo para nós parecia um sonho. Nós sempre dizíamos que só acreditaríamos que estávamos indo para Angola quando estivéssemos dentro do avião. E agora isso era realidade. Três brasileiros e missionários a espera do vôo que nos levaria a tão sonhada terra. Para mim angola já começou dentro do avião. A política da empresa aérea angola é bem diferente das brasileiras. Para começar que após despacharmos as nossas malas ficamos com 2 violões, 4 sacos com fantoches, 3 mochilas e dois travesseiros. Não podíamos despachar isso embaixo senão pagaríamos 200 dólares a mais, valor que não tínhamos. Na verdade não tínhamos dinheiro mais para nada. Até o valor que tínhamos que levar foi um milagre quando a atendente da agencia me ligou dizendo que tinha sobrado um valor das nossas passagens. Esse valor dividido foi o suficiente para trazermos para cá. Ao entrarmos no avião, estávamos bem temerosos com medo de não entrarmos pelo volume que levávamos. Entramos. Ninguém falou nada.
No avião foi outra história. A maioria das comissárias de bordo tinha idade para ser minha avó. Algumas chegavam a ser ignorantes no tratamento dos passageiros. Enfrentaríamos oito horas de vôo. Vimos filme, conversamos, ficamos em pé no avião, comemos, tudo para fazer a hora passar. Eu decidi fazer um teste e tomar um dramim, um remédio para enjôo que dá sono. Eu tomei e nada aconteceu. Depois de 40 minutos eu não conseguia sequer abri os meus olhos eu parecia um paciente dopado. Até para sair do avião mesmo em pé, André e a Jessica tiveram que gritar comigo, já que todo mundo tinha descido do avião e eu ainda estava em pé olhando para o nada.
Ao descermos do avião, antes de pisar de fato no chão de Angola. Eu segurei na mão da Jessica e falei: “Senhor, que os nossos pés estejam a benção de Josué quando o Senhor fala para ele que aonde pisar a planta dos pés o senhor estaria nos dando como posse.”. Eu acredito que Deus me trouxe para cá para fazer a diferença nesse lugar e eu queria que o meu primeiro passe fosse declarando através da palavra que a minha vinda aqui será para fazer a diferença.
Após passar por todo o processo burocrático da alfândega chegamos ao aeroporto de Luanda. Eu pensava que era um grande complexo com diversos aviões e pessoas andando de um lado para o outro, porém para minha surpresa era um aeroporto bem pequeno. Ao chegarmos nos deparamos com muitas placas de empresas, mas nenhumas delas continha o nosso nome. Assim, entendemos que os missionários que estariam lá para nos buscar não haviam comparecido. Isso devia ser por volta das 4:30 de Angola (sabendo-se que a diferença de fuso horário é de 4 horas). Nós três colocamos as nossas malas em um canto e ficamos esperando. A espera já estava nos deixando nervoso. Um país desconhecido, onde éramos desconhecidos por todos. Para relaxar a Jessica decidiu fazer um show particular com os fantoches que levamos. Muitos Angolanos viam e começavam a ri. Só às 7:30 da manhã o missionário chegou. Colocamos todas as malas no carro. O trânsito era uma coisa de louco. Uma pista que era para dois carros, andavam três, quatro. Vimos um carro encontrar em uma moto, onde o piloto quase caiu. Para mim ali começaria uma confusão e para minha surpresa ele se levantou e começou a ri com o motorista de carro como se aquilo fosse uma piada muito engraçada.
Com fome e cansados fomos direto para um ponto aonde saiam todos os ônibus para as outras cidades. A poeira tomava conta daquele lugar, vendendores ambulantes gritando oferecendo as suas muambas. Compramos as passagens, despachamos todas as nossas malas, nos despedimos dos missionários que vieram nos trazer e logo subimos para o ônibus. A mim me pareceu que todo o país entrou naquele ônibus. Eram pessoas com roupas diferentes, mães que carregavam os seus filhos em um pedaço de pano nas costas. Essa cena fez com que eu acordasse e visse que eu estava em um outro país, do outro lado do oceano, numa cultura completamente diferente. Uma criança que estava na nossa frente tinha a sua cabeça coberta por feridas. No calor insuportável sentamos e logo vi a cara da Jessica. Acho que ela queria chorar, talvez estivesse perguntando para si mesma o que estava fazendo ali. Os seus olhos fugiam para a realidade que estava bem na nossa frente. O calor era insuportável, o banco não reclinava. Mas nesses momentos em que estávamos vivendo esse choque no momento veio a minha mente: “ O meu Jesus caminharia por aqui”. Aquilo se traduziu em alegria para mim. Fazer e cumprir uma missão que Deus colocou na minha vida. Nesse momento minha visão mudou. Eu comecei a ver cor no que estava preto-e-branco. Eu vi uma mãe que estava na minha frente com roupas típicas da sua terra, lenços na cabeça e amamentava seu filho e com a outra mão fazia comida para o seu outro menino. Fazia sem problemas e sem reclamar. Um menino ao meu lado que viu a mãe nesse estado pegou o menino no colo e começou a embalar para que ele dormisse como se fosse o seu irmão mais novo e como mais velho tinha que dar a proteção para ele, na verdade ele era um estranho, mas ele levou aquilo como um ato de amor.
Esse que foi o país que eu comecei a observar.
A paisagem que corria através da janela do ônibus era de tribos, angolanas lavando suas roupas no rio e por vezes uma região semi-árida com uma árvore sem folhas que modificava um pouco aquele quadro. Muitos lugares onde os nossos olhos foram testemunhas.
Depois de três horas consecutivas de estrada o ônibus fez uma parada. Não foi em um posto de gasolina com restaurantes e banheiro, mas foi no meio de uma estrada poeirenta aonde mulheres corriam em direção ao ônibus oferecendo mandioca, biscoitos e gasosas (refrigerante). Jessica precisava ir ao banheiro e como André já estava dormindo eu me ofereci para ir com ela. Chegamos a um grupo de homens e perguntei: “Aonde é o quarto de banho (banheiro)”. Ele virou para mim e me apontou com o dedo aonde era e voltou a jogar cartas. Caminhamos por um lugar apertado que parecia um beco. Chegamos a um cubículo aonde sequer tinha teto. Empurrei a porta que insistia ficar fechada. E quando esta se abriu nos deparamos com um buraco. Apenas um buraco. Eu não sei como a Jessica conseguiu, mas ela conseguiu urinar (não me pergunte como!).
Após 8 horas de viagem e algumas tentativas frustradas de dormir nos deparamos com o Marcos (obreiro e líder da nossa equipe em Angola) entrando em nosso ônibus onde seus grandes olhos verdes mostravam alegria de nos receber em seu novo país/lar nos convidando a descer. Mais uma vez retiramos todo o peso do ônibus e ficamos esperando uma hora a mais para chegar um carro que nos levaria para a base. Após a chegada de um brasileiro que falava como um angolano, começamos outra viagem. A nossa frente estava morros e mais morros com diversas casas de barro e crianças que gritavam “Brasileiro, brasileiro” e acenavam as suas mãos para nós, algumas ousavam a correr atrás do nosso carro como se fossemos alguma celebridade.’ O carro tinha que agüentar os subidas íngremes que tinha que passar para chegar na base. Fomos recepcionados pela Viviane, esposa do Marcos com um grande sorriso e de braços abertos. Fomos apresentados a nova casa. Muitos angolanos, principalmente crianças e que foram adotadas por um casal de angolanos. De cara, um choque para quem estava acostumado a viver no conforto, com boa comida. Essa será a nossa nova casa durante 60 dias. O meu quarto junto com André era só poeira e com dois colchões. Tomamos banho, jantamos e às 8 da noite fomos nos deitar já que estávamos a mais ou menos 22 horas viajando sem parar.
Por volta das 1 da manhã acordo com o André e em pé tentando pegar um convidado que estava escondido em nosso quarto: um rato.